1 - Dramatizar, dramatizar, dramatizar até à exaustão. O ano será preenchido com a retórica eleitoral dominada pelo tema do "nós ou o caos", vidé "esquerda progressista" ou "moderada" contra os "rostos do passado" (PSD/CDS) ou os "extremistas" (BE, PCP).
2 - Para as eleições europeias, a receita é a mesma: pedir o voto para o partido que é "pela Europa", para travar os que são "contra" e lhe criticam tendências "imperialistas e militaristas". Combater o crescimento à esquerda, evidente nas sondagens, é a principal preocupação imediata do PS.
3 - A escolha de Vital Moreira, um compagnon de route do PS há muitos anos, não é uma "pedrada no charco". Se a direcção socialista conta com o título de independente para suscitar a adesão de novos eleitorados, é verdade que - descontando algumas divergências pontuais - Vital tem sido um dos mais entusiastas apoiantes do governo Sócrates na esfera pública. Não será o nome de Vital a ajudar o PS a recuperar um voto perdido de um professor em guerra com a ministra da Educação.
4 - Ao terceiro dia, José Sócrates fez um intervalo e expurgou o discurso de encerramento da vitimização em torno da "campanha negra". Mas o argumento continuará disponível para excitar a militância para a congregação em torno do chefe e, a qualquer momento, poderá ser desencadeado para provocar eleições antecipadas. O PS está pronto, o PSD não, e a demissão do Governo (com o argumento das "forças ocultas") pode eleitoralmente ser favorável ao objectivo da maioria absoluta.
5 - A vitimização em torno da campanha negra tem em vista um objectivo: condicionar a justiça e a comunicação social. É um caminho perigoso para a democracia. 2009 pode bem, neste capítulo, ser o mais infernal dos últimos anos.
6 - O tempo corre contra o PS, mas o argumento da crise poderá render eleitoralmente, de acordo com o velho princípio segundo o qual em tempos conturbados as pessoas agarram-se ao que conhecem. Se é verdade que as esquerdas têm visto as suas votações subir com a crise (dizem as sondagens), também é notório que a crise manteve o PSD em recessão técnica.
7 - O PS excluiu com violência alianças à esquerda, mas o congresso não usou da mesma violência com a sua direita. Tendo em conta que José Sócrates aceitará "com humildade" os resultados eleitorais, não será absurda a tentativa, se falhar a maioria absoluta, de renovação do Bloco Central ou uma aliança com o CDS. A verdade é que, rigorosamente - e como em 1975 - une-os bastante mais do que os separa. As bases socialistas terão dificuldade em "engolir o sapo", mas a manutenção do partido no poder e o espectro da crise e da "salvação nacional" servirão de contra-argumentos justificativos.
8 - Manuel Alegre não foi a Espinho, nem podia ter ido - a menos que fosse para fazer as pazes com o líder. O Congresso, aquele congresso, não queria ouvir falar em "convergências de esquerda" - serviu, de resto, para as demonizar. Agora, ou Manuel Alegre faz a desfeita de cortar com o PS e abençoar qualquer movimento em aliança com o Bloco - podendo aí contribuir para a derrota do PS que será perder a maioria absoluta - ou fica no partido (embora fora das listas de deputados) a sonhar com as presidenciais. Já não tem muito tempo para decidir e esta decisão será central para o sucesso do PS nas legislativas.
9 - Ninguém discutiu nada que fosse contra o chefe. Isto diz tudo sobre a eucaliptização dos partidos no poder.
10 - José Sócrates elegeu como primeira prioridade o desemprego. Mas não apresentou uma única medida concreta. Do discurso final, sobraram algumas (boas) propostas na educação e nas áreas sociais. O resto foi excitar (muito profissionalmente) as massas do partido, ajudado por uma encenação perfeita. Para um programa de Governo ainda é pouco.