Os resultados anuais da Caixa de Depósitos foram dominados pelo mais recente negócio polémico e contestado pela Oposição.
A compra de 10% da Cimpor pela Caixa ao empresário Manuel Fino. A reestruturação da dívida de Manuel Fino foi necessária porque as acções da Cimpor que o empresário deu como garantia de um empréstimo contraído junto do banco público para comprar acções do BCP sofreram uma forte desvalorização na bolsa.
Depois de uma hora de apresentação dos lucros de 2008, que já agora caíram 46,4% para 459 milhões de euros, em que a operação não foi referida, as perguntas dos jornalistas sobre o caso Cimpor não se fizerem esperar. E o que querem saber?
O negócio foi bom para a Caixa ou um favor a Manuel Fino que fica com o direito de recomprar as acções durante três anos? Houve ou não dedo do Governo nesta decisão do banco público que beneficia aquele que há um ano era considerado um dos homens mais ricos de Portugal, pelas acções que tinha na Cimpor, Soares da Costa e BCP?
O presidente da Caixa , Faria de Oliveira, não tem dúvidas de que a operação foi um bom negócio para a Caixa que assim garantiu o mal menor das três alternativas possiveis: limitou as perdas, garante 10% de uma das maiores empresas industriais portuguesas, contribuindo para a sua estabilidade accionista, e ainda ganha dividendos.
Já sobre o conhecimento prévio do Governo sobre a operação, a conclusão é menos clara. O primeiro-ministro José Sócrates disse só ter tido conhecimento do negócio na terça-feira de Carnaval. Um dia depois deste ter sido comunicado ao mercado?
Mas mais comprometedor foram os dados divulgados pelo Ministro das Finanças no Parlamento esta quarta-feira. Antes da Caixa ter explicado em comunicado os pormenores do negócio, procurando respeitar o sigilo bancário, sublinhou Faria de Oliveira, Teixeira dos Santos revelou o valor da imparidade (perda) que a Caixa teria se não tivesse feito o negócio com Manuel Fino, ou seja, 80 milhões de euros.
Faria de Oliveira garantiu que “não houve informação especifíca e directa ao Governo sobre este negócio”, além de que não é prática do banco comentar negócios com clientes porque poderia infringir o sigilo bancário.
Então como é que o ministro sabia dos 80 milhões? O presidente da Caixa admite que essa informação não poderia ser tornada pública pela Caixa, no respeito pelo sigilo entre banco e cliente, mas poderia eventualmente ter sido comunicada ao accionista, neste caso o Estado.
Então Teixeira dos Santos afinal já sabia detalhes da operação e quebrou o sigilo bancário, perguntam os jornalistas?
A resposta não é directa, mas o vice-presidente Francisco Bandeira é rápido a esclarecer: qualquer pessoa podia ter feito essa conta com a informação já conhecida, apesar do comunicado a explicar o negócio ter sido público no dia a seguir. “Os senhores jornalistas estão sempre a fazer essas contas”, acrescenta. Só que desta vez não fizeram. Além disso, e para não haver dúvidas, conclui o vice-presidente da Caixa, “só os bancários é que estão sujeitos ao sigilo bancário”.
Isso quer dizer que os ministros não estão? Mesmo que na qualidade de representantes do accionista Estado têm acesso a informação protegida pelo sigilo bancário…
Com ou sem segredo bancário, Faria de Oliveira terá de explicar melhor o negócio porque o PS viabilizou a ida do presidente da Caixa ao Parlamento.
{Ana Suspiro}