Escutas e viúvas
Há uma semana tive o gosto de entrevistar o ex-ministro da Justiça de Cavaco Silva, Laborinho Lúcio. A dada altura da entrevista, reflectindo sobre as palavras do Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, na abertura do ano judicial, segundo as quais um dos maiores problemas da Justiça é a sua ligação a políticos - devendo ser respeitada a ideia de que "à Justiça o que é da Justiça e à política o que é da política" -, Laborinho Lúcio teve uma conclusão que me parece óbvia, mas que muitas vezes é esquecida: ainda que seja verdade que se devem separar os campos, o certo é que há processos na Justiça que, mesmo que acabem por resultar na absolvição por falta de prova - e por isso não tenham consequências penais -, podem e devem ter consequências políticas. A Justiça, mesmo quando falha, apresenta conclusões. Ou seja, devendo ser separado o que pertence à Justiça e o que faz parte da Política, há titulares de cargos políticos que não são condenados em tribunal, pelas mais diversas razões, incluindo a prescrição dos crimes ou a tal falta de prova, mas que deveriam ser condenados politicamente, pela opinião pública e pelos seus pares. É isto precisamente o que acontece com José Sócrates - e é isso também que, ao contrário do que dizem ou pretendem algumas viúvas públicas e notórias do ex-primeiro-ministro, mais do que justifica a publicação de escutas em que intervém e que, recorde-se, não estão sob segredo de justiça. O interesse público - e político - é evidente. Doa a quem doer.









