Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Falta cruelmente, nos nossos dias, alguém que escreva um livro muito necessário, e que poderia até ter um título bem bonito, parcialmente copiado de Montaigne: “Da facilidade de acreditar, ou do pensamento a crédito”.

 

Como os filósofos explicaram, somos animais naturalmente crentes, e há mesmo formas de credulidade sem as quais a vida social não poderia pura e simplesmente existir. O problema é quando essa credulidade não é apenas selectiva – em adultos é-o sempre -, mas assenta numa lenga-lenga, numa canção  monótona e enfadonha, que militantemente obscurece o nosso contacto com a informação. A lenga-lenga é a “opinião comum” que substitui, por preguiça e temor de dissentir, a curiosidade individual. Sentir diversamente faz medo. E passa-se a pensar a crédito.

 

Tomemos um exemplo recente, tão bom como outro qualquer. Berlusconi declarou, a propósito dos desalojados pelo terramoto de Áquila que estes deveriam considerar a situação provisória em que se encontravam como um “acampamento de fim-de-semana”. Toda a gente, é claro, lhe caiu, com indignação ou irrisão, em cima. Típico bufonear inconveniente do italiano. Mas, vendo as suas declarações à televisão, percebe-se perfeitamente que ele não disse nada que qualquer outro primeiro-ministro, em idênticas circunstâncias, procurando confortar as pessoas, não pudesse ter dito. C’est le ton qui fait la chanson, como dizem os franceses. Indiscutivelmente, o tom ali era de compaixão.

 

Acontece que a canção já estava nos ouvidos, mas com uma tonalidade diferente. Era muito mais fácil (e vale a pena sublinhar aqui a “facilidade”) supor a proverbial perversidade saloia nos propósitos de Berlusconi do que procurar perceber o seu significado. Ainda por cima estas coisas fazem-nos sentir inteligentes, um benefício apreciável, e muito compreensível, quando lidamos com alguém rico. Seguir a opinião comum, pensar a crédito, além de fácil, tem destas vantagens narcísicas.

 

A informação muito imensa que está à nossa disposição sobre um sem fim de assuntos resulta, na maior parte dos casos, inútil. E tal inutilidade, vale a pena repetir, não é consequência da irredutível selectividade da nossa credulidade, ou só o é secundariamente. Tem a ver com algo mais profundo: a facilidade – quase a compulsão - de acreditar naquilo que a opinião comum assevera. De pensar a crédito, de viver do empréstimo das opiniões. A “suficiência comum e mendigada” desses hábitos, para falar como Montaigne, não se recomenda.

 

 

{Paulo Tunhas}



Paulo Pinto Mascarenhas
16 Abr 09 | link do post | comentar

4 comentários:
De João Paulo Magalhães a 16 de Abril de 2009 às 13:06
Parabéns pela expressão - é muito apropriada.

Resume também aquilo que me ocorre ao ver essas opiniões. Existe um consenso moral que torna mais fácil repetir opiniões do que reflectir sobre elas. A isto está talvez também associada uma falta de auto-confiança que
gera um proselitismo acrítico. Que se manifesta, por exemplo, em que a mesma pessoa tem um comportamento sobranceiro perante quem ousa discordar e um comportamento subserviente perante quem é emite as opiniões reconhecidas pela maioria. O pusilânime triunfo do poder dos pequeninos.

E a imprensa - por exemplo a das revistas de fim-de-semana - fomenta esta atitude, tornando-se num autêntico manancial de opiniões prontas a consumir, para mais tarde usar em conversas de café monocromáticas e acéfalas, cujo verdadeiro fito é cada um dos intervenientes se valorizar perante os outros. Vou chamar a isto fast-opinion. Sem a fast-opinion, não é possível esse pensamento a crédito que tão bem identificou, e portanto a pusilânime sobranceria que referi aqui. Ficaria desmascarada a confrangedora ignorância sobre o assunto que discutem.

João Paulo Magalhães


De artur de oliveira a 17 de Abril de 2009 às 00:49
é verdade... isso desmascara um principio bem mediaval, mas que continua bem vivo e de saúde na opinião popular, o vox populum, vox deum... é certo que as vezes na opinião popular, onde ha fumo ha fogo, mas isso é outra conversa e há excepções que confirmam as regras...


De Nuno Santos a 16 de Abril de 2009 às 14:37
Bem!
Lê também:
http://aoutravarinhamagica.blogspot.com/2009/04/o-levantamento-do-sigilo-bancario.html


De Perplexo a 16 de Abril de 2009 às 17:37
Então e "A morte a prestações", do Celine, não conta?


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