Falta cruelmente, nos nossos dias, alguém que escreva um livro muito necessário, e que poderia até ter um título bem bonito, parcialmente copiado de Montaigne: “Da facilidade de acreditar, ou do pensamento a crédito”.
Como os filósofos explicaram, somos animais naturalmente crentes, e há mesmo formas de credulidade sem as quais a vida social não poderia pura e simplesmente existir. O problema é quando essa credulidade não é apenas selectiva – em adultos é-o sempre -, mas assenta numa lenga-lenga, numa canção monótona e enfadonha, que militantemente obscurece o nosso contacto com a informação. A lenga-lenga é a “opinião comum” que substitui, por preguiça e temor de dissentir, a curiosidade individual. Sentir diversamente faz medo. E passa-se a pensar a crédito.
Tomemos um exemplo recente, tão bom como outro qualquer. Berlusconi declarou, a propósito dos desalojados pelo terramoto de Áquila que estes deveriam considerar a situação provisória em que se encontravam como um “acampamento de fim-de-semana”. Toda a gente, é claro, lhe caiu, com indignação ou irrisão,
Acontece que a canção já estava nos ouvidos, mas com uma tonalidade diferente. Era muito mais fácil (e vale a pena sublinhar aqui a “facilidade”) supor a proverbial perversidade saloia nos propósitos de Berlusconi do que procurar perceber o seu significado. Ainda por cima estas coisas fazem-nos sentir inteligentes, um benefício apreciável, e muito compreensível, quando lidamos com alguém rico. Seguir a opinião comum, pensar a crédito, além de fácil, tem destas vantagens narcísicas.
A informação muito imensa que está à nossa disposição sobre um sem fim de assuntos resulta, na maior parte dos casos, inútil. E tal inutilidade, vale a pena repetir, não é consequência da irredutível selectividade da nossa credulidade, ou só o é secundariamente. Tem a ver com algo mais profundo: a facilidade – quase a compulsão - de acreditar naquilo que a opinião comum assevera. De pensar a crédito, de viver do empréstimo das opiniões. A “suficiência comum e mendigada” desses hábitos, para falar como Montaigne, não se recomenda.
{Paulo Tunhas}